Sublinhando Livros

Apr 13

Um Grito de amor do centro do mundo - Kyoichi Katayama

Sinopse:

Sakutarô é ainda um garoto quando conhece Aki na escola em que estuda, numa cidadezinha japonesa. Ela é bela, inteligente e popular, e logo se tornam amigos inseparáveis. Mas, conforme Sakutarô amadurece, ele começa a ver em Aki mais do que apenas uma amiga. Em pouco tempo, sua relação se transforma numa paixão arrebatadora.

Os adolescentes trocam juras de amor; prometem nunca mais se separar. Mas uma tragédia fará com que o destino de ambos seja irremediavelmente alterado.

Um grito de amor do centro do mundo é um dos romances japoneses mais lidos de todos os tempos. Foi adaptado para o cinema e para uma série de TV, além de ter se tornado um mangá de sucesso no Japão.

Trechos Sublinhados:

"Olhei para a pequena urna que a mãe de Aki segurava.
Será que Aki estaria realmente dentro daquela urna cuidadosamente
envolta num belíssimo tecido brocado?
Assim que o avião decolou, caí no sono. E sonhei. Era um sonho do tempo em que Aki ainda estava bem. No sonho, ela ria. Era o sorriso de sempre, com aquele jeitinho meio acanhado. “Saku-chan!”, era como ela costumava me chamar
carinhosamente. A sua voz, me chamando, ainda ressoa em meus ouvidos. Gostaria que esse sonho se tornasse realidade, e a realidade, um sonho. Sei que é impossível. E é por isso que sempre acordo chorando. Não de tristeza. Choro porque, ao deixar o sonho agradável e retornar para a realidade triste, existe uma fenda pela qual não há como passar sem derramar lágrimas. Já tentei inúmeras vezes; nunca consegui.”

"Quando vim para cá, quatro meses antes, Aki também não estava. Ela ficou no Japão enquanto nossa turma do ensino médio veio nessas excursões de escola. Partimos de uma cidade do Japão — um país tão perto da Austrália —
para chegar a uma cidade da Austrália — tão perto do Japão.
A rota desse voo é sem escala, pois não há necessidade de reabastecer o avião. É uma cidade que passou a fazer parte da minha vida por um motivo singular. Naquela ocasião, achei esta cidade linda. Aos meus olhos tudo era diferente, exótico e novo. Isso porque Aki também via através de meus olhos. Mas agora, por mais que eu veja algo, seja lá o que for, não sinto mais nada. Afinal, o que será que ainda tenho que ver aqui?
Este é o significado da ausência de Aki. De não tê-la mais comigo. Não tenho mais nada para ver: seja na Austrália, no Alasca, no Mediterrâneo ou mesmo na zona glacial antártica. E não importa para qual lugar do mundo eu vá; será sempre assim. Por mais que o lugar seja maravilhoso, a paisagem extraordinária, nada será capaz de me comover ou me deixar feliz. Perdi a pessoa que despertava minha vontade de ver, conhecer, sentir e até mesmo… viver. Ela nunca mais vai estar ao meu lado.
Tudo aconteceu num intervalo de quatro meses; praticamente o de uma única estação do ano. Foi nesse curto espaço de tempo que uma garota desapareceu deste mundo.
Se considerarmos que existem seis bilhões de habitantes, certamente sua perda é insignificante. Mas não estou com esses seis bilhões. Estou num lugar em que uma única morte extinguiu todos os meus sentimentos. Estou num lugar assim. E nesse
lugar sou aquele que não vê, não ouve e não sente mais nada. Mas será que realmente estou aqui? Se eu não estiver, então,onde eu estou?”

trecho em pdf: http://www.objetiva.com.br/arquivos/capas/920.pdf

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Feb 27

Outras vidas que não a minha - Emmanuel Carrère

Sinopse:

Emmanuel Carrère é um dos mais brilhantes escritores da nova literatura francesa. Em seu novo livro, ele leva aos limites o gênero do romance, pois não só relata o estritamente real, a vida dos outros, dos que estão à sua volta e sofrem com dramas pessoais, como é testemunha de uma tragédia de proporções impensadas: hospedado em um resort de luxo no Sri Lanka, vê os efeitos devastadores do tsunami varrer a região no final de 2004.

"Na noite que antecedeu a onda, lembro-me que Hélène e eu falamos em nos separar", diz ele, ao iniciar sua narrativa. Afetado pela devastação, ele acompanha a jornada de um casal francês que perdeu sua filha de 4 anos. E, de volta à França, ao tentar retomar o cotidiano, ele se depara mais uma vez com a morte: uma mãe jovem, com três filhas pequenas, perde gradualmente a batalha contra o câncer.

Mas este não é um livro sobre a devastação e a ruína. Pelo contrá;rio, pois as pessoas deste relato, pessoas de carne e osso, com suas pequenas e grandes lutas, recusam-se a permanecer no abismo. O livro, segundo a crítica, “é o marco de uma nova literatura, que desafia a realidade”.

Trechos Sublinhados:

"Aconteceu uma coisa estranha na véspera da festa. Étienne pegou o carro do pai , sem dizer para quê, e foi a uma sauda da rua Sainte-Anne transar com um cara. Aquilo nunca lhe aconteceu depois, não se sente absolutamente homossexual, mas naquela noite fez aquilo. Foi uma das últimas coisas que fez com suas duas pernas. Fes o que, exatamente? Como determinadas cenas de sonho , não se lembra de nada, ou melhor, sim dos detalhes periféricos. O trajeto da ida. Parar o carro num estacionamento da l’Ópera, em seguida procurar aquela rua aonde nunca tinha ido, pagar sua entrada no caixa, tirar a roupa, entrar nu no banho a vapor onde outros homens nus se esfregavam, se chupavam, se enrabavam.  Terá chupado, terá sido chupado? Qual era a aparência do indivíduo? Tudo isso o âmago da cena, foi apagado de sua memória. Sabe apenas que aconteceu. Em seguida voltou para Sceaux, encontrou seus pais que ainda não tinham ido se deitar, falou com eles, naquele tom neutro que adoramos quando acontece uma catástrofe e não há de fato, nada a dizer sobre ela."

"Aos dezoito anos, essa garota fascinante e esportiva viu-se obrigada a admitir que não andaria mais como todo mundo. Uma de suas pernas ficaria praticamente inerte e a outra completamente, ela as arrastaria apoiando-se em muletas, não poderia abri-las quando fizesse amor pela primeira vez. Precisaria de ajuda, como a ajudavam a sair da banheira ou a subir uma escada. Num dos textos lidos no seu enterro, alguém associou sua vocação pra justiça à injustiça que ela sofrera. Entretanto, quando seus pais cogitaram ajuizar uma queixa contra o dentro de radioterapia, Juliette, que já era estudante de direito, opôs-se. Não era mais injusto ser deficiente por causa do tratamento do que por causa da doença. Inclisive não era especialmente injusto: era uma pena, sim, falta de sorte, mas a justiça nada tinha a ver com isso. Para lidarcar com sua deficiência, preferia se desinteressar por sua causa e seus eventuais responsáveis.”

"Juliette não pareceu convencida. Suspirou como alguém que fracassou num exame e que prefere não tocar no assunto, depois disse, tristemente: minhas filhas não se lembrarão de mim.

Você também não se lembra da sua mãe quando você era pequena. Nem eu da minha. Não vemos mais o rosto que elas tinham. Apesar disso, elas moram dentro de nós.”.

trecho em pdf: http://www.objetiva.com.br/arquivos/capas/872.pdf

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Oct 22

As Correções - Jonathan Franzen

Sinopse:

As correções narra a história dos conflitos religiosos, geracionais e de costumes de uma típica família americana na última década do século XX. Nos Estados Unidos dos anos 1990, nada escapa ao olhar agudo do autor: a instabilidade do mercado financeiro, as promessas de bem-estar dos novos antidepressivos, a moral religiosa da velha geração e a ausência de escrúpulos dos jovens americanos.
A família Lambert encarna a crise de valores da sociedade contemporânea. Alfred é um engenheiro ferroviário aposentado, teimoso e cheio de manias agravadas pelo mal de Parkinson recentemente diagnosticado. Enid é uma dona-de-casa comum. O casal, na faixa dos setenta anos, vive às turras numa pequena cidade do Meio-Oeste americano.
Os três filhos foram para metrópoles da costa Leste a fim de se livrar da mediocridade da vida em família. Na Filadélfia, Gary, o mais velho, tornou-se banqueiro. Deprimido e paranóico, porém, acaba com o próprio casamento. A caçula, Denise, também mora na Filadélfia, onde é chef de cozinha, mas sua vida sexual tumultuada a faz perder o emprego. Em Nova York, Chip, o filho do meio, é um roteirista frustrado. Ao se envolver com uma aluna, arruína a carreira de professor universitário e vai parar na distante Lituânia, país imerso nas recentes transformações capitalistas do Leste europeu.
Para contar essa história em que todos procuram incessantemente corrigir os rumos que imprimiram às próprias vidas, o autor usa uma prosa ácida, que expressa o embate entre mundos inconciliáveis: o universo conservador dos pais e o pragmatismo sem horizonte dos filhos.

Trecho Sublinhado:

O problema de Gary com grupos de doentes, além da constatação de que eles envolviam grandes quantidades de corpos humanos e de que ele não gostava de corpos humanos em grandes quantidades, era que ele achava que a doença era uma coisa de classe baixa. Gente pobre é que fumava, gente pobre é que comia rosquinhas de leite às dúzias. Gente pobre que era engravidada por parentes próximos. Gente pobre tinha maus hábitos de higiene e vivia em vizinhanças tóxicas. Gente pobre, com seus males, constituía uma subespécie da humanidade que felizmente permanecia invisível para Gary, exceto em hospitais e em lugares como a Central Discount Medical Supply. Pertenciam a uma linhagem mais burra, mais triste, mais gorda e mais resignada com o sofrimento. Uma subclasse doente que ele realmente preferia evitar.

No entanto, ele chegara a Saint Jude sentindo-se culpado por várias circunstâncias que escondera de Enid e tinha prometido que seria um bom filho por três dias. Assim, apesar de sua vergonha, tinha passado em meio àquela multidão de coxos e aleijados, entrado no vasto salão de mostruário de móveis do Central Discount Medical, e procurado um banquinho  para seu pai sentar-se no chuveiro.

Uma versão para orquestra sinfônica da música natalina mais chata de todos os tempos, Little Drummer Boy, escorria de alto-falantes ocultos no salão. A manhã, do lado de fora das vitrines de vidro laminado, estava clara, ventosa, fria. Uma folha de jornal enrolou-se em torno de um parquímetro com um desespero que parecia erótico. Toldos de lona gemiam e as borrachas protetoras de pára-lamas dos automóveis estremeciam.

A imensa variedade de banquinhos médicos, e a gama de doenças cuja existência eles atestavam, podiam ter deixado Gary mal caso ele não tivesse sido capaz de fazer julgamentos estéticos.

Perguntou-se, por exemplo, por que bege. O plástico dos artigos de uso médico era geralmente bege, no máximo um cinza doentio. Por que não vermelho? Por que não preto? Por que não verde-azulado?

Talvez o plástico bege tivesse a intenção de garantir que aquelas peças de mobiliário só seriam mesmo usadas com finalidade médica. Talvez o fabricante temesse que, caso as cadeiras ficassem bonitas demais, as pessoas pudessem ter a tentação de comprá-las com fins não-médicos.

Claro, era isto que eles precisavam evitar a qualquer preço: gende demais querendo comprar seus produtos!

Gary balançou a cabeça. A estupidez daqueles fabricantes.

Escolheu um banquinho robusto e baixo de alumínio com um assento bege bem largo. Escolheu uma barra resistente (bege!) para instalar no chuveiro. Maravilhado com o preço de custo, levou os artigos até o caixa, onde uma amistosa moça do Meio-Oeste, possivelmente evangélica (usava um suéter de brocado com uma franja), mostrou os códigos de barra para um raio laser e disse a Gary, com um sotaque da parte sul do estado, que aqueles bancos de alumínio eram de fato um produto excelente. “Tão leves e praticamente indestrutíveis”, disse ela. “É para a sua mãe ou para o seu pai?”

Gary abominava a invasões de sua privacidade e recusou-se a dar à moça a satisfação de uma resposta. Mas fez que sim com a cabeça.

"Os velhinhos ficam trêmulos no chuveiro depois de uma certa altura. Acho que acaba acontecendo com todo mundo." A jovem filósofa passou o cartão AmEx de Gary por uma fenda. "Está passando as festas em casa, ajudando um pouco os velhos?"

"Sabe para que esses banquinhos me parecem perfeitos?" , perguntou Gary. "Para se enforcar. Não acha?"

A vida sumiu do sorriso da moça. “Não entendo nada disso.”

"Tão leve… bem fácil de empurrar com o pé."

"Assine aqui por favor."

Ele precisou brigar contra o vento para abrir a porta de saída. O vento estava cheio de dentes, e mordeu-o através de sua jaqueta de couro. Era um vento que não enfrentava nenhuma topografia digna do nome em seu trajeto desde o Ártico até Saint Jude.

Tomando a direção norte no rumo do aeroporto, deixando o sol baixo piedosamente para trás, Gary perguntou-se se teria sido cruel com a moça. Era possível que sim. Mas ele estava tão sob tensão, e uma pessoa submetida a estresse, em sua opinião, tinha o direito de ser estrita em relação aos limites que estabelecia para si mesma - estrita em sua contabilidade moral, estrita quanto ao que se dispunha ou não se dispunha a fazer, estrita acerca de quem era e de quem não era e acerca das pessoas com quem deveria ou não falar. Se uma menina evangélica mais atrevida insistia em puxar conversa, ele tinha o direito de pelo menos escolher o assunto.

Mas também sabia, não obstante, que se a moça fosse mais atraente ele teria sido menos cruel.”

Oct 14

Desgracida - Dalton Trevisan

Sinopse:

Mais uma vez, um dos maiores contistas brasileiros imprime seu estilo inconfundível em Desgracida. Dividido em duas partes, em “Ministórias” está a consagrada ironia e o habitual sarcasmo de seus contos; em “Mal Traçadas Linhas” ele reproduz textos de antigas cartas enviadas a alguns amigos, como Pedro Nava, Rubem Braga e Otto Lara Resende.

Trechos Sublinhados:

"Aos dez anos, meninos, eu vi. As coxas de Ana, doce Ana, eu vi - a primeira iluminação erótica. E minha vida nunca mais foi a mesma.

Muitos anos depois fui à Cachoeira. Na volta, dei com a casa da Ana - o lambrequim azul rendilhado, a eterna roda quebrada de carroça no pátio. Ela casou, um bando de filhas, ficou velha - e bebia depois de velha.

Na varanda uma polaquinha linda, perna cruzada, cuia de mate na mão.

-Dona Ana está?

-A mãe morreu.

Logo naquele dia. Poxa, que azarado. Entrei na casa, cumprimentei as outras filhas.

-A que hora o enterro? Onde ela está?

-O doutor quer ver?

Fomos eu e a moça pra sala da frente. E a Ana lá estava, sozinha e esquecida, entre as quatro velas.

Coberta pelo grosseiro pano branco - o sol dourado faiscava na poeira flutuante ao pé do caixão. Zumbia em linhas quebradas uma gorda varejeira azul.

Sem que eu pedisse, a moça afastou o lençol - olhei e vi uma velhinha de novecentos anos. A boquinha murcha de sobrecu de galinha. Pergunta mais boba, logo me arrependi:

-Ela bebia?

-Só no sábado.

As polacas da Cachoeira bebem cachaça no sábado. A gente encontra todas as polacas bêbadas. Que voz mais rouca. Que canto mais triste. Cambaleiam ao sol. Você as derruba no matinho.

Olhei bem. Ao doce e puro amor ela preferiu um gole, mais um e outro mais para a viagem. Deus, ó Deus, que triste final será o meu? Infeliz, sim. Aflito, sim. Chorando os dias perdidos.

-Pode cobrir, moça.

Ninguém ligava à pobre Ana, uma algazarra ali na cozinha, a disputa da cuia na varanda.

Me despedi, com uma dúvida. A coxa entrevista da filha… esse mesmo branco de nova epifania?”

"Caro X,

Esta cidade, quem diria, é cada vez mais povoada pelos teus mortos.

Aonde você vai, para onde olha… Os parentes, esses, rondam teus passos.

Eis o primo Beto finado há tantos anos que distraído cruza a tua frente. Você acena, é tarde: pronto se perde na multidão.

Na praça a antiga namorada, o mesmo vestidinho branco de nuvem, enrola numa trança a cabeleira loira pra jogá-la nos ombros… E se afasta sorrindo, braço dado com a coleguinha.

O teu amigo íntimo que se foi tão cedo… Veja ali na fila do ônibus - é o João! O famoso bigodinho preto de moço. Para ele os anos já não prevalecem?

Cada inverno os entes queridos chegam em maior número. Mais presentes a toda hora de tua vida.

Não estão aí para te assombrar. E, sim, assistir na aflição e na dor.

Chamam o teu nome.

Ao se voltar, sombras efêmeras, já se foram. Você ouve ainda as suas vozes em surdina.

Em noite de insônia ou no sono profundo eles te fazem companhia. Nunca mais está só.

E na hora final pode contar com a mão de tua filha para abrir suavemente a última porta.”

" Craquinho

Eu tava três dias fumando horrores. Sem comer. Sem dormir. Só queimando a pedra. Você para, a fissura te pega. Já se perde numa noia de veneno.

Não é como outra droga, não. O craque. Cê não consegue largar. Quer mais um. Mais um. E mais um.

É diferente porque ele você ama.

Só dez segundinhos. Fatal. Te bate forte no peito. O bruto soco na cabeça. E o mágico tuimmm!

Na pedra, sabe? Tem um espírito vivo. Daí o craquinho fala direto comigo:

-Vai, Edu. Vai nessa, mermão!

Cê fica o tal. Olho de vidro, o polegar chamuscado, acelero alto. Mais força e poder. O pico de zoar no paraíso.

E já no inferno. Isso aí, bacana. O teu inferno sem volta.

Fatal.”

Sep 16

E o Burro Viu o Anjo… - Nick Cave

Sinopse:

Tudo no Vale Ukulore é inóspito e estranho, desde a paisagem pantanosa e agreste aos habitantes fanáticos da seita Ukulita. Euchrid Eucrow nasce numa família peculiar: a mãe é alcoolica, o pai psicótico e a criança traz consigo a “marca” da frustração — a mudez. Neste ambiente demoniáco, o rapaz busca outros horizontes. Ele espia Cosey Mo e Beth, seres que na sua vida e missão lhe são pares, enquanto na sua vida de desilusões e fracassos é acompanhado por um anjo… Esta não é, contudo, uma narrativa de insucessos. Em “E o Burro Viu o Anjo…”, Nick Cave oferece-nos uma história em que o macabro e o cômico se conjugam de forma entusiasmante, numa escrita de impressionante lucidez e fascínio.

Trechos Sublinhados:

"Aí, nos estertores do parto, a sua titubeante esposa tremia contra o milagre que, inchado, se debatia aos pontapés dentro dela, enquanto ela sugava numa garrafa do seu próprio White Jesus, balançando o Chevy com os seus espasmos e gemendo e berrando, berrando e gemendo, "Pai!Pai!Pai! Pa-a-ai!", até que ela ouvisse a porta do barracão a abrir e depois a porta do barracão a fechar, e com isto abandonou a manhã e ficou inconsciente.


"Já estava bêbeda demais para empurrar", contaria o Pai a Euchrid mais tarde.

Libertando a garrafa de álcool da sua suja carcereira, pois mesmo esvaída, ela continuava e continuava a beber, o Pai quebrou-a cuidadosamente no enferrujado pára-choques do carro. Usando a intuição como parteira e um grande caco de vidro como bisturi, deitou por terra a sua prostrada esposa-prenha e embebeu as suas partes íntimas com licor de fruta. E com uma cadeia de pragas derramando-se da sua boca, e com todos os insectos do Verão a zumbir, com o Sol no céu e sem uma nuvem à vista, com um diabólico estremeção e um fluxo de plasma, dois avultados recém-nascidos saíram aos tropeções.

"Jesus! Dois!" berrou o Pai, mas um morreria em breve.


Dentro do barracão, dois caixotes de fruta forrados com papel de jornal ficaram lado a lado em cima da mesa. As armadilhas tinham sido afastadas e penduradas nas paredes à volta. Dois caixotes e, em cada um, um bebé. O Pai entrou. Nenhum deles fez barulho e ambos ficaram quedos e deita-dos de costas, nus como o dia e com os olhos arregalados e vagos. O Pai tirou o coto dum lápis do bolso das calças e, vesgo, debruçou-se sobre os pequenitos, escrevendo no berço do primogénito ‘N.º 1’, depois, lambendo a ponta do lápis ‘N.º 2’, no berço onde Euchrid estava. Então afastou-se e fitou-os a um e outro, um e outro retribuíram o olhar, sérios.

Os seus eram estranhos olhos amendoados, com pequenas pálpebras e quase sem pestanas, azuis mas tão pálidos, que pareciam matizar-se em cor-de-rosa; intencionais, ávidos, nunca quietos nem por um momento — antes pareciam flutuar, esses estranhos olhos inquietos, não paravam e tremiam nas suas cavidades despestanadas.

O pequeno Euchrid tossiu, pouco e convincentemente, a sua pequena língua cor-de-rosa lambendo o seu lábio inferior e depois retorcendo para dentro. E como se esperasse por um sinal e reconhecendo-o no tímido ataque de tosse de Euchrid, o destemido primogénito fechou os olhos para um sono do qual não mais iria despertar.”

"Ouçam, ê nã quero falar mal dos mortos, mas já vos contei que a minha mãe era uma grande baleia choramingona da cona? Bem, ela era precisamente isso — uma grande baleia choramingona duma cona de porca com um seco verme negro por cérebro.

A porcalhona queria armar em pedagoga quando nem se aguentava em pé para falar. Era uma coisa muito triste de se ver.

Numa certa noite em que o Pai se tinha retirado mais cedo, a Mãe resolveu que me havia de ensinar acerca da minha herança, dos meus avoengos, da minha árvore genealógica e coisas desse género. Estava sentado na cadeira de costas duras e estávamos a jogar este tipo de jogo de que ela costumava gostar.

Balançando-se à minha frente com a sua pétrea garrafa castanha numa pata e um velho mata-moscas de plástico na outra, ia-me primeiro dar uma lição, que duraria qualquer coisa como uma hora, às vezes duas, e então começaria a fuzilar-me com perguntas. Se a resposta fosse “sim”, eu deveria levantar a minha mão direita, e se a resposta fosse “não”, deveria levantar a minha esquerda. Se ê respondesse incorrectamente e levantasse a mão errada, ela brindar-me-ia com uma sibilante batidela no alto da cabeça com o mata-moscas. Se não respondesse de todo, o que era usual, uma vez que ambas as minhas mãos tinham sido amarradas às pernas da frente da cadeira, ela iria martirizar-me por toda a orelha direita ou esquerda, dependendo do sítio onde ela achasse estar a resposta correcta.

Por vezes, lá para o fim da garrafa, ela acharia que se tinha esquecido da resposta e então ê receberia um estremeção em ambas as orelhas. Quando por fim já não se lembrasse da pergunta, ou mesmo do assunto da lição, ou mesmo da razão pela qual me atara a uma cadeira e o porquê do mata-moscas na sua mão, começaria e esvoaçar numa loucura de estalos, batidas, assaltos, palmadas, esvoaçantes ataques e murros, até que, exausta, caía em colapso na sua cadeira de braços. Tinha então que esperar até que o Pai decidisse que já era seguro entrar na sala e desamarrar-me.

De qualquer modo, ê não quero afundar aqui um cadáver, atirando-lhe porcaria em cima — uma vez que isso é tudo que ela é agora, porcaria de vermes — ah, sim, e uma alma, uma gemente alma que arde. Quero contar-vos o que a Mãe me revelou nessa noite em particular, acerca dos mês antepassados, acerca da minha ascendência, da parte do mê pai — coisas estranhas, coisas de que ê sempre suspeitara, acerca da minha herança, acerca do mê sangue. Sim, acerca do mê sangue. A Mãe rugia, uma vez que raramente falava. “A tua árvore genealógica, pá, da parte do tê Pai, é uma árvore muito sombria, e com isto nã quero dizer que tenha muitas folhas a crescer pr’a dar sombra. O lado do tê Pai é só um grande nó negro retorcido da porra, plantado no mais desolado dos bosques esquecidos — Estou a falar de gente que não presta, pá, e não existe criação mais rasteira e vil do que esta. É por isso que o tê Pai não bate bem — é por isso que tu não bates bem, sem contar com a tua estupidez natural. Sabes que o tê nome num é Eu-crow? O tê Pai mudou-o quando deixou as montanhas. Alguma vez ouviste falar do clã Morton? Bem, num era muito saudável ter o apelido Morton há quarenta anos, há quarenta anos enforcavam Mortons à dúzia. Os montes estavam cheios deles. Encurralaram a maioria, mas uns tantos safaram-se — como tê Pai. Estoirou com a própria orelha en-quanto escapava. Os Mortons eram as últimas criaturas que poderiam agradar a um porco. O seu sangue é negro. Como teu. Maldito sangue negro e pestilento. Olha pr’os tês olhos — têm lá sangue — vi desde o início — Sangue agitado…”

E que isto e que aquilo, o seu monólogo a continuar com o tempo e com o luar maléfico nos seus miolos — má conversa, mau tempo, maus humores — mesmo diante dos mês olhos — sim mesmo diante dos mês olhos agitados. E ê esperaria, sentado na cadeira de costas duras, curvado pela cintura e preso pelos pulsos às suas pernas de madeira, como uma bruxa no pelourinho à espera do inevitável “julgamento” — o mê teste — à espera dos aguilhões e das faixas dessa feiticeira de contos de fadas, à espera do inevitável derrame do meu doentio, do mê negro, do mê doente sangue negro.


"Tal como ê me lembrava", pensei ê, com um genuíno alívio, "vermelho". Escavê um recente buraco na pele com a minha boa mão e voltê a pôr a tesoura no chão ao pé do patíbulo. Quer dizer, se esta chuva está a lavar os caixões e as lápides funerárias, então uma tesoura não iria durar muito tempo no chão a menos que fosse presa a qualquer coisa de sólido. Espetê-a na cova que se esbruía, o melhor que pude, tendo perfeita noção de que esta lama não era do género usado nos enterros.

Apoiando-me numa raiz que se erguia como um torvelinho de nós esbranquiçados a partir do solo em erosão no sopé da árvore patibular, peguei num lenço grande e encharquei-o na escura poça de sangue que envolvia e preenchia a minha mão magoada. Segurando o sangrante farrapo à luz pardacenta da tarde, o sangue parecia ainda mais vermelho.

Convencido, apertei a mão no lenço. Pus este último por sobre o leito escarlate que escorria do buraco na palma da minha mão e o envolvia completamente. “Amanhã volto a ver”, pensê, sabendo perfeitamente que voltaria a abrir a doentia ferida, com a sua crosta enegrecida ainda nessa noite. Galguei a inclinada subida, em direcção à cabana, fatigado. “

Sep 05

O Pássaro Pintado - Jerzy Kosinski

Sinopse:

A odisséia de uma criança anônima que sobrevive durante os anos da Segunda Guerra Mundial, escondida, nas aldeias e florestas da Polônia, do perigo dos invasores alemães e da brutalidade do resto do mundo, é um misto de memória pessoal (também o autor foi separado dos pais nesse período) e de tentativa de exorcismo de uma geração através da representação do inefável, do inimaginável. Sem qualquer sentimentalismo ou pendor ideológico, somos levados pela mão para o centro do palco do mais terrível drama da História. E deixados na floresta.

Trechos sublinhados:

"Frequentemente se enraivecia se a massa de fazer pão azedava. Acusava-me de ter lançado uma praga e me deixava dois dias de castigo sem comer pão. Tentando não encarar, Marta, para agradá-la, eu andava na cabana de olhos fechados, esbarrando nos móveis e virando os baldes, lá fora pisoteava os canteiros e tropeçava como um inseto ofuscado pela luz. Enquanto isso Marta juntava penugens de ganso, que lançava sobre as brasas, soprando a fumaça em todas as direções e murmurando rezas para exorcizar os maus espirítos.

Afinal, anunciava que a praga estava enconjurada. E tinha razão, pois a próxima fornada sempre produzia pão saboroso.

Marta sobrevivia à dor e à doença, contra as quais mantinha uma luta selvagem e constante. Quando a dor começava a incomodá-la, picava cuidadosamente um pedaço de carne crua e a colocava num pote de barro. Em seguida despejava sobre ela água do poço, tirada antes do amanhecer, e enterrava o pote num canto da cabana. Dizia que isso lhe aliviava as dores por alguns dias, até a carne apodrecer. Logo porém, quando as dores voltavam, repetia novamente toda a cerimônia.

Marta jamais bebia na minha presença, e nunca sorria. Acreditava que se o fizesse me daria a oportunidade de contar-lhe os dentes, e cada dente contado significava um ano a menos na sua vida. Na verdade, não tinha muitos dentes, mas eu compreendi que na sua idade até mesmo um ano é muito precioso.

Eu também tentava beber e comer sem mostrar os dentes, e treinava olhando minha imagem no espelho azulado do poço, procurando sorrir sem abrir os lábios.

Marta proibiu-me também de catar do chão os cabelos que ela perdia. Era conhecido o poder do olhar maligno, que pousado sobre um único fio podia acarretar as piores dores de garganta.”

"Com um pontapé o moleiro afastou a mulher, e num gesto rápido, como o das mulheres ao limpar batatas, merculhou a colher num dos olhos do rapaz e rodou-a na órbita.

O olho sauto-lhe do rosto como uma gema de ovo, rolou pela mão do moleiro e caiu no chão. O ajudante gritava e guinchava, mas o moleiro o mantinha preso contra a parede. A colher ensanguentada mergulhou no outro olho, que saltou ainda mais depressa. Pareceu ficar por um momento indeciso, depois rolou pela camisa até o chão.

Tudo tinha acontecido num minuto. Eu não conseguia acreditar no que tinha visto. Uma esperança me atravessou a mente, que os olhos arrancados pudessem ser recolocados no lugar. Gritando, a mulher do moleiro correu para o outro quarto e acordou as crianças, que começaram também a gritar aterrorizadas. O ajudante lançou um uivo pungente, depois em silêncio, cobriu o rosto com as mãos. Filetes de sangue jorraram por entre os seus dedos, escorreram-lhe pelos braços, pingando lentamente na camisa e nas calças.

O moleiro, ainda enraivecido, empurrou-o para janela, como se esquecido de que o outro estava cego. O rapaz tropeçou, gritou, quase caiu sobre a mesa. O moleiro agarrou-o pelos ombros e, abrindo a porta com o pé, lançou-o lá fora. O rapaz tornou a gritar, vacilou no umbral, e caiu no pátio. Os cães, sem saber o que tinha acontecido, começaram a latir.

Os olhos continuavam no chão. Caminhei ao seu redor, sempre ao alcance de seu olhar. Timidamente os gatos, se aproximaram do centro do quarto e começaram a brincar com eles como se fossem novelos; à luz do lampião de querosene, suas próprias pupilas tornaram-se estreitas como fendas. Os gatos cheiravam, lambiam, rolavam os olhos, que passavam um para o outro, empurrando-os delicadamente, com as patas macias. Parecia-me agora que os olhos me olhavam de todos os cantos do quarto, como os donos de uma nova vida independente.

Eu os observava fascinado. Não fora a presença do moleiro, os teria pegado pra mim. Certamente ainda viam. Eu os guardaria no bolso, e os usaria quando preciso, por cima dos meus, passando a ver o dobro ou quem sabe até mais. Talvez eu pudesse prender na nuca, para que me dissessem, não sabia bem como, o que se passava às minhas costas. Ou, melhor ainda, poderia deixar os olhos nalgum lugar e eles me contariam o que tinha acontecido na minha ausência.

Talvez os olhos não quisessem servir a ninguém. Podiam facilmente fugir dos gatos e rolar porta afora, vagueando em seguida pelos campos, lagos e florestas, olhando tudo, livres como pássaros fora da gaiola. Libertos do corpo, não morreriam mais, e assim pequenos poderiam se esconder em qualquer lugar, espionando as pessoas. Excitado, decidi fechar a porta e capturar os olhos.

O moleiro, evidentemente aborrecido com a brincadeira dos gatos, chutou os animais e esmagou os olhos sob as botas pesadas. Ouviu-se um estalo. Um espelho maravilhoso, capaz de refletir o mundo inteiro, tinha sido partido. Ficava no chão apenas uma espécie de geléia, e em mim o terrível sentimento de perda.

Sem me dar atenção, o moleiro sentou-se, escorregando aos poucos à medida que adormecia. Levantei-me silenciosamente, peguei a colher ensanguentada e comecei a juntar a louça. Era minha obrigação arrumar e varrer o quarto. Mantinha-me afastado dos olhos, por não saber o que fazer com eles, mas afinal, sem olhar, varri-os rapidamente para dentro da pá e joguei-os no fogão.

De manhã, acordei cedo. Ouvia lá embaixo o ressonar do moleiro e da mulher. Com cuidado preparei uma sacola de comida, enchi o cometa de brasas e, distraindo o cachorro com um pedaço de salsicha, abandonei a casa.

Encostado na parede do moinho, perto do estábulo, jazia o ajudante. A princípio pensei em passar por ele rapidamente, mas logo lembrei-me que ele não enxergava. Estava ainda sob o efeito do choque; o rosto coberto com as mãos, chorava e gemia, todo ensanguentado. Tive vontade de dizer alguma coisa, mas refreei-me, com medo de que me perguntasse o que havia sido feito de seus olhos, obrigando-me a contar que o moleiro os tinha esmagado. Sentia muita pena dele.

Perguntava a mim mesmo se a perda da visão implicaria também o esquecimento de tudo o que havia sido visto antes. Se assim fosse, o homem não enxergaria realmente mais, nem em sonho. Caso contrário, porém, mantida a visão na memória, a cegueira não seria assim tão ruim. O mundo parecia-me quase igual em toda parte, e apesar de as pessoas serem diferentes uma das outras, como os animais e as árvores, não deveria ser difícil saber-lhes as feições depois de tê-las visto durante tantos anos. Eu tinha vivido apenas sete anos, mas já lembrava muitas coisas, e quando fechava os olhos reencontrava, ainda mais vivídos, inúmeros detalhes. Quem sabe sem os olhos o ajudante talvez descobrisse um mundo novo e fascinante.

Ouvi sons vindos da aldeia. Temendo que o moleiro acordasse, prossegui meu caminho, tocando os olhos de vez em quando. Caminhava com cuidado, pois sabia agora que os olhos tem raízes delicadas. Quando a gente se abaixa, pendem como maças no galho, e podem cair facilmente. Resolvi pular as cercas de cabeça erguida; mas, na primeira tentativa, tropecei e caí. Assustado, levei os dedos aos olhos para certificar-me de que ainda estavam no lugar. Depois de perceber que se abriam e fechavam corretamente, contemplei feliz a revoada de perdizes e tordos. Voavam ligeiros, mas eu os acompanhava com o olhar e os precedia quando se encolhiam sob as nuvens, menores do que gotas de chuva. Prometi a mim mesmo lembrar tudo o que visse. Assim, se me arrancassem os olhos, guardaria para sempre a memória de todas as minhas imagens.”

Aug 29

Sangue Sábio - Flannery O’Connor

Sinopse:

Flannery O´Connor nasceu no sul dos Estados Unidos e publicou este romance em 1952. Nele, um jovem ateu, Hazel Motes, tem como profissão o ministério da fé cristã. Ao se deparar com dois trapaceiros que exploram religiosos, decide criar sua própria seita, “onde o cego não vê, o aleijado não anda e o que está morto assim permanecerá”. Porém um homem vai acabar com o ceticismo de Motes, fazendo com que se encaminhe para a redenção.

Trecho Sublinhado:

" O Cabineiro levantou-se e saiu mancando corredor abaixo e, após alguns minutos, voltou, ainda mancando, com ar impassível, carregando a escada. Hazel aguardou ao seu lado enquanto o homem firmava a escada na parte lateral do leito. Em seguida, começou a subir os degraus. No meio da escada, virou-se para o homem e disse - Eu me lembro de você. Seu pai era um crioulo chamado Cash Parrum. Você não pode voltar lá em Eastrod mesmo. Nem você nem ninguém, mesmo que quisesse.

-Sou de Chicago - disse o cabineiro irritado. - E meu nome não é Parrum.

- O Cash morreu - Hazel disse. - Pegou cólera de um porco.

Boquiaberto, o cabineiro disse - Meu pai trabalhava na estrada de ferro.

Hazel se pôs a rir. O cabineiro puxou bruscamente a escada de Hazel precipitou-se para dentro do leito, agarrando-se ao cobertor. Permaneceu deitado de bruços por alguns minutos sem se mover. Então, virou-se, acendeu a luz e olhou em volta de si. Não havia janela. Estava encerrado no leito, com apenas um pequeno espaço aberto acima da cortina. O teto da cabine era baixo e curvo. Deitado, percebeu  que era como se o teto não estivesse bem fechado. Permaneceu imóvel por um bom tempo. Havial algo em sua garganta que parecia uma esponja, com sabor de ovo. Não queria virar-se de lado, temendo que a tal esponja se movesse. Mas queria apagar a luz. Esticou a mão sem se mover, tateou a parede procurando o interruptor, desligou-o, e a escuridão o engoliu, diminuindo aos poucos com a luz que vinha do corredor,e passava pelo espaço aberto na cortina. Ele queria a escuridão total. Ouviu os passos do cabineiro no corredor, macios sobre o tapete, vindo em sua direção, roçando as cortinas verdes e desaparecendo no final do vagão. Mais tarde, quando já estava quase dormindo, teve a impressão de ouvir os passos do homem novamente. As cortinas da sua cabine se mexeram e os passos desapareceram.

Em um estado letárgico, sentiu-se como se estivesse deitado dentro de um caixão. O primeiro caixão que vira com um corpo dentro fora o de seu avô. A tampa ficara aberta, apoiada por uma ripa de madeira, e o caixão permanecera a noite toda na sala, com o velho dentro. Hazel espiava de longe, pensando: o velho não vai deixar que fechem a tampa; quando chegar a hora, vai meter o cotovelo pela abertura. Seu avô havia sido um pregador que viajar por toda a parte. O velho era irascível como uma vespa e havia percorrido os três condados da região com Jesus escondido na cabeça como um ferrão. Quando chegou o momento de enterrar o velho, a tampa do caixão foi fechada sem que ele movesse um dedo.

Hazel teve dois irmãos mais jovens. Um morreu recém-nascido e o corpo foi posto dentro de uma caixa pequena. O outro, aos sete anos de idade, caiu na frente de uma ceifadeira. O caixão deste tinha a metade da dimensão  de um caixão comum e, quando fecharam a tampa, Hazel  correu e abriu-a novamente. Disseram que era porque estava desolado com a idéia de se separar do irmão menor, mas não era bem assim; era porque havia pensado: e se fosse ele próprio que tivesse sido fechado dentro do caixão?

Agora dormia, e sonhava que estava novamente no enterro do pai. Ele via o pai dentro do caixãode quatro, sendo carregado naquela posição para a cova. - Se eu ficar de rabo pra cima - ouvia o pai dizer - não vai dar pra fechar a tampa do caixão. Mas quando o caixão chegou à sepultura, os coveiros deixaram-no cair, fazendo um barulho surdo, e o velho esticou-se como qualquer mortal. O trem sacudiu e acordou-o momentaneamente e ele pensou, deveria haver uns vinte e cinco habitantes em Eastrod naquela época, inclusive três Motes. Agora, não havia mais nenhum Motes sequer, nenhum Ashfields, nem Blasengame, tampouco Fey, Jackson,… ou Parrum. Nem os negros queriam ficar lá. Virando a esquina, viu, no escuro, o armazém abandonado, o celeiro despencando, a casa caindo aos pedaços, a varanda e o piso da sala destruídos.

Tudo era diferente quando, aos dezoito anos, ele deixara o povoado. Dez pessoas ainda moravam em Eastrod, mas Hazel não se havia dado conta de como o lugar tinha ficado menor depois da morte de seu pai. Ele se fora aos dezoito anos porque o exército o recrutara. O primeiro pensamento que teve foi o de meter uma bala no pé e receber baixa. Ele ia ser um pregador como o avô, e pregador não precisa de dois pés para sobreviver. A força de um pregador está na garganta, na língua, nos braços. Seu avô percorrera os três condados num Ford. No último sábado de cada mês, ele entrava em Eastrod, como se houvesse chegado exatamente no instante de salvar o povoado do fogo do inferno, e começava a brandar antes mesmo de abrir a porta do carro. As pessoas se acercavam do Ford porque ele as desafiava. Subia no capô do carro e fazia sua pregação e, às vezes, subia no teto do carro e, do alto, gritava para seus ouvintes que eram como as pedras! Mas que Jesus morreu pra redimi-los! Jesus sofreu tanto pelas almas, que morreu uma morte pela morte de todos, mas Ele teria morrido todas as mortes para salvar cada um deles! Eles entenderam? Eles entenderam que por cada alma de pedra Ele morreria dez milhões de mortes, teria Seus braços e pernas esticados e pregados na cruz dez milhões de vezes, por cada um deles? (Nesse momento o velho apontava para o neto, Hazel. Tinha desprezo pelo menino especialmente porque era como se sua própria fisionomia houvesse sido reproduzida na da criança, parecendo arremedálo). Será que eles sabiam que por aquele menino ali, por aquele menino infeliz, pecador e ignorante que ali estava, de mãos sujas e trêmulas, Jesus morreria dez milhões mortes para evitar que a alma dele se perdesse? Jesus seguiria esse menino pelos mares do pecado! Eles duvidavam que Jesus podia caminhar sobre as águas do pecado? Aquele menino tinha sido salvo e Jesus jamais o abandonaria. Jesus nunca permitiria que ele esquecesse que estava redimido. O que o pecador esperava ganhar com sua conduta? Jesus o conquistaria no final!”

Aug 16

Hell - Paris - 75016 - Lolita Pille

Sinopse:

Lolita Pille escreve sem pudor sobre o mundo ao seu redor. Retrato sincero e devastador da juventude rica e consumista de Paris, que preenche suas vidas com sexo, álcool, drogas e roupas de grife, ‘Hell’ poderia se passar em qualquer grande cidade do mundo, pois espelha os valores e o comportamento de uma classe para quem o mundo se divide em duas categorias - ‘nós’ e ‘vocês’. Uma classe que, sem encontrar limites para o prazer, vive o angustiante vazio do excesso. Hell, pseudônimo da narradora, é uma garota rica, fútil e arrogante, detestável sob todos os aspectos. Assumidamente frívola e preconceituosa, ela gasta diariamente em butiques de luxo mais do que o salário mensal da maioria dos leitores do livro. Em sua narrativa nervosa quase não há trama, porque HelI e suas amigas vivem um presente perpétuo, uma sucessão de prazeres cujo sentido está nas aparências e na superfície das coisas.

Trecho sublinhado:

"-A coisa toda é muito simples. Alfredo ama Violeta. Violeta ama Alfredo. É o amor, a paixão, coisa de pirado. Mas Violeta é uma cortesã. Isso quer dizer puta de luxo. Violeta é puta de luxo e sabe muito bem que Alfredo não possui os meios para sustentá-la. E, como  ela não quer arruiná-lo, tenta sair dessa vida. Uma grande briga, a reconciliação em meio às lágrimas e a decisão de não se separar mais. Só que chegou a vez de o pai de Alfredo aprontar. Ele exige que Violeta deixe o filho em paz porque o relacionamento dos dois está manchando a boa reputação da família. Violeta, disposta realmente a qualquer sacrifício, usa de tudo para afastar dela o apaixonado enlouquecido. E ela consegue tão bem, que, este, transtornado como só ele, faz tantas maldades que ela acaba morrendo. No meio disso tudo, pinta também a tuberculose. Porque, como toda boa heroína romântica, ela está tuberculosa. Pronto. Uma bela história de amor. Destruída pela morte. É triste, hem?

-Sim, é triste.

-A continuação, a gente não sabe. A gente não sabe o que acontece com Alfredo depois. A gente não sabe se ele consegue esquecer Violeta. Como é que ele faz para aguentar a vida, quando aquela que ele amo morre. Pode ser que, vinte anos mais tarde, Alfredo esteja casado e seja um modesto pai de família, sofra de vista cansada, uma ligeira calvície se insinue, e, quando o nome Violeta emerge da confusão nebulosa de suas lembranças, ele o associe a uma das suas farras da juventude, há muito devidamente expiada, e ele nem saiba ao certo se sua ex-Dulcinéia morreu ou foi simplesmente embora. E se for o caso de ele ter morrido de tristeza?

"Nada disso. Eu conheço a continuação. Alfredo vai toda noite ao Queen. Ele afoga sua dor na vodca. Ele bebe como uma esponja e termina a noite sempre de quatro. E pensa naquela que perdeu.

"Alfredo descobriu a cocaína e enche o nariz de pó 24 horas por dia. E pensa naquela que perdeu. Alfredo não sabe mais chorar. Porque chorar alivia, e ele não quer se sentir aliviado. Violeta está perdida para sempre e Alfredo se vinga em outras putinhas, em babacas desinteressantes, da morte daquela que amava. Ele transa com elas, ele as pervete, ele as faz sofrer. Bem que gostaria de matá-las, mas não tem coragem para tanto. Ele gostaria sobretudo de se matar, de estourar os miolos. Uma vez que não tem mais nenhuma razão para viver. Mas ele também não tem coragem. Ele é um covardão, um covarde miserável. Ele é incapaz de largar uma existência abominável, prefere viver da pior maneira possível. Alfredo é alcoolatra, drogado e suicida. Ah, mas não precisa se preocupar com ele. Ele não vai durar muito e também vai morrer. De uma overdose, de uma acidente de carro, de uma facada num beco, de uma doença incurável… Ele reencontrará de novo o sorriso apenas para dizer adeus. Agora, se manda, seu táxi já deve estar lá embaixo.”

Eu o acompanho até a porta. Ele murmura duas ou três palavras, sua compaixão me provoca horror. Bato a porta na cara dele.

A calma. A solidão, enfim. Enfiei um roupão e volto para a biblioteca me arriando no canapé profanado. Fico imóvel diante da minha lareira, onde nenhum fogo queima, fumo um cigarro atrás do outro. Meus olhos fixos estão voltados para o interior, para o clarão apagado de um passado terminado, para as imagens douradas de uma felicidade apagada.

Não esperem que esta história termine em tragédia, não há nenhuma. Ele morreu e mais nada faz sentido pra mim. Encaro o futuro como uma eternidade de provações e fastio. Minha covardia me impede de pôr fim aos meus dias. Vou continuar a sair, a cheirar, a beber e a perseguir os babacas.

Até que eu morra.

A humanidade sofre. E eu sofro com ela.”

Aug 15

Tolo, Morto, Bastardo e Invisível - Juan José Millás

Sinopse:

Um alto executivo fica desempregado e decide refazer a vida à margem de tudo o que o rodeia, contando com sua imaginação como única aliada. A partir de então, com o maior dos sarcasmos, viverá qualquer fato cotidiano como uma aventura fantástica.

Trechos sublinhados:

"Lembro que naquela noite de domingo David, meu filho, teve febre. Soube-o eu antes que minha mulher, quando o levei para a cama, mas não o disse a Laura. David pediu-me que lhe contasse uma estória e eu inventei na hora a estória de um menino, Olegário, que morava com seus pais e sua irmã mais nova em um povoado alegre e confiante. Olegário tinha feito às escondidas um bigode postiço, idêntico ao seu pai, que costumava levar na bolsa da escola. Assim, quando tinha problemas com seus colegas ou com seus professores, se escondia atrás de um arbusto, colocava o bigode, e todos achavam que ele era seu pai. Então, dirigia-se ao professor que pretendia castigá-lo dizendo:

-Meu filho não fez ontem o dever de casa porque teve febre.

Ou então ao menino que o tinha agredido:

-Se encostar de novo no meu filho, eu te mato.

Desta maneira, chegou um momento em que ninguém se atrevia a mexer com ele, porque seu pai aparecia nos momentos mais inesperados.

Nisto, o pai de Olegário pereceu em consequencia de um acidente, e Olegário, para que sua mãe e sua irmã não sofressem, se escondeu no banheiro da casa e colocou o bigode. A mulher, ao vê-lo aparecer no corredor, pensou que seu marido tinha voltado e deixou de chorar. O caso foi que Olegário já não pôde desfazer-se do bigode e aí pensaram que o menino tinha sido raptado, razão pela qual sua mãe e sua irmã voltaram a mergulhar na tristeza.

Então fingiu que tinha de passar a noite fora por razões de trabalho e apareceu sem bigode, isto é, em forma de menino, para as duas mulheres. Explicou-lhes que tinha feito um pacto com a morte para que uma não ficasse viúva nem a outra orfã: tinha trocado, enfim, sua vida pela de seu pai, daí que tivesse desaparecido ao mesmo tempo que ele ressucitou. Acrescentou, para acalmá-las, que a morte era um lugar luminoso e amplo onde as árvores, em vez de frutas, davam desejos. Tendo convencido as duas mulheres que se encontrava bem, desapareceu pelo corredor e voltou a se apresentar, no dia seguinte, de bigode.

Calei-me nesse ponto, confiando em que David já houvesse adormecido, mas o menino abriu os olhos, já claramente febris, e perguntou o que é que tinha acontecido depois. Eu refleti um pouco a partir da benevolência de minha condição universal e verifiquei que o relato criava uma expectativa de dois incestos, embora só um tivesse consumado, de modo que decidi continuar. Contei que depois de muitos anos, quando sua mãe faleceu, Olegário retirou-se para uma casa abandonada nas margens do povoado e arrancou o bigode disposto a retornar à escola para recuperar os anos perdidos. O homem do bigode, portanto, desapareceu para surpresa de todos, embora tenha-se logo deixado de falar de sua ausência porque já não era tão necessário como antes, mas também porque a simultânea aparição de um desconhecido na casa abandonada da periferia atraiu a atenção de todos. Além do mais, o fato de que esse desconhecido se empenhasse, apesar de sua idade, em ir à escola, fez com que fosse considerado um retardado mental, de quem caberia esperar qualquer extravagância.

Entretanto, seus antigos colegas de escola, transformados já em agressivos jovens, não faziam outra coisa senão cortejar a sua irmã, cuja beleza e bom caráter faziam a inveja de todas as mulheres do local. Mas ela recusava a todos com desdém, como se esperasse por alguém cuja chegada lhe tivesse sido anunciada por um anjo.

O retardado mental, por outro lado, observava do ponto de vista de sua obscura condição as intrigas de seus antigos colegas para seduzir sua irmã, ao mesmo tempo que notava a repulsa caridosa que sua presença provocava na escola. Um dia farto de suportar essa dupla humilhação, procurou novamente o bigode, que conservara em um saquinho plástico, e, com ele sobre os lábios, entrou no povoado com o aspecto de quem vem de muito longe. Todo o mundo ficou deslumbrado com a boa figura daquele desconhecido que atravessou as ruas com a determinação de um príncipe e foi diretamente pedir a mão da jovem que até então recusava todos os seus pretendentes. A jovem aceitou sem hesitar as propostas deste novo homem do bigode, de modo que casaram e viveram felizes para sempre.

Dois incestos, pensei enquanto tentava decifrar na penumbra do quarto a expressão de meu filho. David abriu os olhos e me perguntou o título da estória:

-“Olegário, o homem do bigode” - respondi.

-E o Tolo desapareceu para sempre? - insistiu.

-Do Tolo falaremos outro dia - acrescentei, cobrindo-o.”

"Atingi a porta da cozinha, projetei para o exterior o corredor que levava dentro de mim, e me dirigi através dele para o quarto do menino. Acabara de acordare apreciou com gratidão a minha presença.

-Como você está?

-Minha cabeça está doendo pelo lado de dentro. Conte-me um conto de Olegário, o do bigode, mas de quando fica bobo.

Coloquei a mão na testa do menino e me pareceu que estava um pouco quente, mas a confirmação desse fato não me produziu nenhum movimento emocional.

-Está bem - disse, sentando-me na beirada da cama.

Você deve lembrar que o Olegário casou com a irmã dele, que não o reconheceu graças ao postiço.

-O que é um postiço?

-Um homem de bigode.

-Mas o postiço é tudo ou somente o bigode?

-No começo só o bigode, mas quando você o usa durante muito tempo, você esquece de como era antes e tudo já se torna artificial.

-Está bem, continue.

- O caso - comecei a contar - é que Olegário se aborreceu de ser sempre o mesmo e um dia abandonou a irmã, voltou para aquela casa abandonada na periferia do povoado e tirou o bigode para tornar a ser anormal. Começou novamente a frequentar a escola e, como era muito obstinado, à força de exercitar a memória e de ter bom comportamento, conseguiu concluir os estudos. De todo modo, no vilarejo continuavam pensando que era um tolo, embora ele não percebesse. Logo foi vendo que seus colegas de estudos começavam a trabalhar enquanto ele permanecia ocioso no interior da casa abandonada, ainda que, bom, na verdade, não ficasse ocioso o tempo todo; acontece que se dedicava ao estudo de coisas estranhas como, por exemplo, a influência dos arrotos dos dinossauros no aquecimento da terra e no aparecimento do efeito estufa.

-Claro.

-Imagine que o arroto de um único dinossauro produz o mesmo calor que o de três milhões de arrotos humanos ou mesmo mais, porque os dinossauros se alimentaram com umas plantas que durante o processo digestivo produziam  um gás causador de grandes danos à atmosfera. Olegário chegou a calcular o número de desodorantes em aerossol que seria necessário consumir para causar à atmosfera um dano semelhante ao do arroto de um único dinossauro.

-Era muito esperto.

-Não, não, era tolo, por isso ninguém tinha coragem de lhe dar um emprego. É verdade que trabalhou numa loja de ferragens durante algum tempo, mas foi demitido porque demorava muito no atendimento: toda vez que vendia uma chave de fenda explicava ao cliente o princípio da alavanca. Você sabe qual é o princípio da alavanca?

-Dá no mesmo, continue.

-Ele gostava de mecânica, dos aparelhos, mas o que o enlouquecia era explicar aos clientes o segredo das coisas.

-Qual é o segredo das coisas?

-O princípio da alavanca. Quer que eu lhe explique?

-Não, continue.

-Ao ser expulso da loja de ferragens, refletiu muito sobre si mesmo e chegou logo à conclusão de que era anormal, ao menos se comparado às pessoas de sua idade, que a essa altura  já tinham empregos estáveis e estavam casados e tinham filhos. Ele era tratado por toda parte com simpatia, mas com esse tipo de simpatia ou bondade que se tem com os tolos. Então decidiu emigrar para uma cidade em que seu defeito não fosse conhecido, pensando que bastaria disfarçar para que ninguém percebesse: nada de dinossauros, arrotos, ou conferências sobre o princípio da alavanca. Alugou naquela cidade um quarto e dedicou-se a observar as pessoas normais para imitá-las. Levava sempre no bolso um caderno em que anotava as frases que ouvia e que lhe pareciam especialmente úteis para ocultar a sua condição. Logo à noite, no quarto, as decorava pronunciando-as diante do espelho, imitando os gestos dos outros. Aprendeu a cruzar as pernas cada vez que dizia alguma coisa importante e a arquear assim as sobrancelhas quando fingia não ter escutado direito alguma coisa. Transcorrido um mês decidiu que estava pronto. Colocou, então, um terno azul, uma gravata vermelha, e saiu à procura de emprego. Ficou com um que consistia em vender enciclopédias a domicílio.

Batia na porta de todas as casas e, como disfarçava muito bem, conseguiu vender muitas enciclopédias e ganhar muito dinheiro. Logo, começou a sair com uma moça normal que nunca reparou que ele era tolo.

-Disfarçava muito bem, né?

-Muito bem, filho. Mas a verdade é que Olegário começou logo a ficar cansado daquela vida. Por certo que ganhava dinheiro e que sua namorada era muito bonita, embora não tanto quanto a irmã dele, e que era apreciado pelos chefes, mas o que ele desejava mesmo era ser tolo para se dedicar ao estudo dos arrotos dos dinossauros e à explicação do princípio da alavanca, O fato é que decidiu abandonar tudo e voltar para o vilarejo. Seu chefe não podia entender e não fazia senão perguntar se queria um aumento ou coisa parecida. Olegário confessou-lhe, então, que era tolo mas que tinha disfarçado para levar uma vida normal. No início, o chefe não acreditava mas quando viu como ele ia teimando, disse-lhe: “O senhor é tolo. Peça as contas e suma daqui.” Sua namorada, horrorizada, abandonou-o quando soube que andara saindo com um anormal, e Olegário, feliz porque tinha recuperado a sua verdadeira identidade, dedicou-se ao estudo das tempestades.

-Quer dizer que voltou para o vilarejo?

-Conto isso outro dia. Agora durma.

-Conte-me só o que aconteceu quando voltou.

-Acontece que sua irmã tivera uma filha, porque, embora ele não soubesse, quando saiu do povoado a tinha deixado grávida. Como tinha passado muito tempo, a filha já era uma jovem muito bonita com quem todos os rapazes do vilarejo queriam se casar.

-O que mais?

-Um outro dia. Agora feche os olhos e durma.”

"E o resto do dia transcorre lentamente, pois quando as coisas vão depressa, as horas passam devagar, mas, de qualquer maneira a noite chega, e meu filho, David, na cama, quer que eu lhe conte uma estória de Olegário, o homem de bigode postiço, e eu, que tenho uma vitrine na cabeça, como se fosse um menino em noite de Reis, digo a ele que Olegário, sendo ainda muito pequeno, foi ver os Reis Magos numa grande loja de departamentos. Havia muita gente, uma multidão, e o menino soltou-se um momento da mão do seu pai e se perdeu, perdeu o pai, e começou a procurá-lo com o choro preso na garganta, mas não o encontrava de modo que quando estava avaliando as vantagens de se entregar ao desespero, ao choro, viu um senhor de bigode tão angustiado quanto ele porque tinha perdido seu filho e também o procurava no meio da multidão carregada de presentes. Olegário, então, aproximou-se e estendeu-lhe a mão com naturalidade, como se aquele senhor fosse seu pai, e o senhor de bigode, após exitar uns instantes, pegou-a e saíram juntos da loja de departamentos, os dois disfarçando, como se realmente se tivessem encontrado. E ao chegar à casa, a esposa do senhor de bigode também disfarçou e agiu como se Olegário fosse seu próprio filho, de modo que ficou morando com eles, e Olegário percebeu que era melhor filho do que o verdadeiro, pois o verdadeiro mijava na cama e ele não, enfim, para aqueles pais a troca acabou sendo muito vantajosa, mas para Olegário também por causa do bigode (seu pai não tinha e era impossível disfarçar-se dele), e assim durante a vida inteira sustentaram a ficção de ser uma família, disfarçando como eu tinha disfarçado minha anormalidade, isto eu não disse, claro, e foram muitos felizes, embora nunca tenham voltado à loja de departamentos com medo que aparecesse o verdadeiro pai, ou o verdadeiro filho, e tivessem de se restituir mutuamente."

Aug 14

Os Sofrimentos do Jovem Werther - Johann Wolfgang Goethe

Sinopse:

A literatura alemã divide-se em antes e depois de Os sofrimentos do jovem Werther, que chega às livrarias brasileiras nesta nova e brilhante tradução de Marcelo Backes.

Ao escrever Werther, em 1774, Johann Wolfgang Goethe alcançava sua primeira obra de sucesso e, de quebra, dava início à prosa moderna na Alemanha.

Werther não é, simplesmente, um romance em cartas assim como Nova Heloísa de Rousseau ou Pamela de Richardson. Esta que é uma das mais célebres obras de Goethe é o romance de uma alma, uma história interior. Dilacerante, arrebatada é a história de uma paixão literalmente devastadora. Com enorme repercussão quando do seu lançamento, Werther foi um testemunho de como a literatura tinha poder de agir na sociedade. Não foram poucos os suicídios atribuídos ao romance.

Trecho sublinhado:

"                                                       03 de novembro

Deus sabe quantas são as ocasiões em que me deito na cama com o desejo, e às vezes a esperança, de não tornar a acordar. E de manhã abro os olhos, revejo o sol e me sinto miserável! Oh, não ser eu caprichoso a ponto de acusar o tempo, ou a um terceiro, uma empresa falhada, talvez, para que o insuportável fardo das mágoas não pese inteiro sobre mim! Desgraçado que sou! Sinto, e bem no fundo, que toda a culpa é minha… Não, a culpa não! Basta que eu traga hoje oculta em meu peito a fontevtodas as misérias, do mesmo modo que trazia outrora a fonte de todas as venturas. Não sou eu o mesmo homem que dantes bracejava numa inesgotável sensibilidade, que via surgir o paraíso a cada passo e tinha um coração capaz de estreitar dentro de si o amor do mundo inteiro? Mas agora esse coração está morto, já não brota dele nenhum encanto, os meus olhos estão secos e rasgam sulcos de medo em minha testa. Eu sofro muito, pois perdi tudo o que me causava delícia à vida, essa força divina,vital, com a qual criava mundos ao redor de mim. Ela passou… Quando olho da janela para a remota colina, é em vão que vejo acima dela o sol da manhã atravessar o nevoeiro e brilhar no fundo pacífico do prado, e o brando ribeirão serpentear à minha busca por entre os salgueiros despidos de folhas… Oh, toda essa magnífica natureza é fria para mim, inanimada como uma estampa colorida, e todo esse espetáculo já não consegue bombear do coração à  cabeça a menor gota de um sentimento venturoso, e o homem total está ali, em pé diante de Deus como um poço seco, como  um balde furado. Muitas vezes me prostrei ao chão implorando lágrimas a Deus, como um lavrador clama por chuva quando vê um céu de bronze sobre sua cabeça e a terra ao redor de si a morrer de sede.

Mas,ah,sinto-o, Deus não concede a chuva e sol às nossas importunas súplicas… E esses tempos cuja recordação me atormenta, por que eram eles tão felizes, senão pelo fato de que eu esperava os seus desígnios com paciência? E por que recebia de coração inteira e intimamente agradecido as delícias que ele derramava sobre mim?”